
Em época de mergulhos, vamos conhecer um pouco melhor
o conceito de Inteligência Artificial (IA) e ver que, quer gostemos ou não, já
mergulhamos nesse oceano que é a IA. Embora, para a generalidade do cidadão,
continue a ser uma “coisa de filmes” e realidades como as relatadas no filme
Matrix ainda se afigurem longínquas, atualmente a Inteligência Artificial já
tem impacto em muitos aspetos das nossas vidas. Ainda no passado dia 22 a Google
informou que demitiu o engenheiro de software Blake Lemoine depois de ele ter afirmado
ao The Washington Post, no mês passado, que o Chatbot da empresa
tem alma e sentimentos. A afirmação referia-se à Google LaMDA (Language
Model for Dialogue Applications), uma ferramenta de IA apresentada pela Google
em maio de 2021. A companhia apressou-se a divulgar uma nota acusando Lemoine
de “violar persistentemente as políticas claras de trabalho e segurança de
dados que incluem a necessidade de proteger as informações do produto”, afirmando
que as alegações “são totalmente infundadas” e que trabalhou com ele durantes
meses “para esclarecer” a situação.
A IA é uma ideia que remonta ao Mundo Antigo. Em
várias eras, filósofos e matemáticos ponderaram e dissertaram sobre a possibilidade
de se automatizar o raciocínio e o pensamento humano. O campo de estudo com a
designação Inteligência Artificial surgiu oficialmente em 1956, numa proposta
de um grupo de trabalho liderado por John McCarthy, numa conferência no Dartmouth
College nos Estados Unidos da América.
A Inteligência Artificial apresenta-se como a área da Informática
que se dedica à investigação e criação de software e hardware que
possibilite ir além do mero cálculo e comportamento determinista. Que permita obter
resultados semelhantes aos produzidos pela inteligência humana, como o
raciocínio, a resolução de problemas, a aprendizagem pela experiência, o
planeamento, a tomada de decisões otimizadas, ter em conta as perceções
sensoriais, entre outras características que assumimos como humanas. Pretende-se
criar sistemas capazes de responder a situações de forma muito flexível, dar
sentido a mensagens ambíguas ou contraditórias, reconhecer a importância
relativa de diferentes fatores nas situações, encontrar semelhanças entre
situações apesar das diferenças, identificar distinções entre situações apesar
das semelhanças que as possam ligar.
Para além da Informática, o seu desenvolvimento envolve
diversas outras áreas, é o caso da Biologia, Psicologia, Linguística, Matemática
e Engenharia. Assenta por um lado no estudo dos processos de pensamento e
raciocínio humanos e, por outro, na aplicação dos resultados obtidos nesse
estudo aos mais recentes desenvolvimentos tecnológicos, de modo a obter algo
que se assemelhe aos processos cognitivos humanos.
O conceito é bastante abrangente e inclui a
aprendizagem automática, tecnologias de processamento de linguagem natural,
redes neuronais, algoritmos de inferência, entre outros. Engana-se quem pensa
que a IA é um assunto para os cientistas e de utilização muito restrita. Embora
ainda estejamos longe do ideal de humanoide senciente ou consciente, existem
avanços significativos e a tecnologia já se encontra em aplicações de enorme
impacto. A aplicação da IA já entrou na rotina em tarefas como o reconhecimento
de imagem, tradução automática, extração de padrões de informação em contextos
diversos, diagnóstico médico, construção de chatbots e muitas outras.
Prevê-se que tenha um impacto considerável em praticamente todas as indústrias
imagináveis. Ao pensar em IA vem-nos à ideia os assistentes virtuais como a Siri,
a Cortana ou o Google Assistant, os jogos de realidade virtual ou
as indústrias mais sofisticadas. Mas os nossos smartphones, computadores e
outros dispositivos do quotidiano também já têm incorporada tecnologia com IA e
a cada dia que passa mais processos da nossa vida são influenciados e
impulsionados por ela. Até para tarefas mais criativas, como a escrita de
textos ou composição de peças musicais, a IA foi testada com sucesso e criou peças
que o público não conseguiu distinguir daquelas que foram criadas por humanos.
Nos cuidados de saúde, mediante a análise de sintomas,
reconhecimento de padrões, monitorização de sinais vitais, ou outras técnicas,
a IA já tem capacidade de fornecer sugestões de diagnóstico, auxiliar nas
decisões médicas e sugerir tratamentos e medicação adequada, permitindo maior
rapidez e precisão nos cuidados de saúde.
Na condução de veículos, ainda que os carros autónomos
não sejam uma realidade do dia a dia, já temos disponíveis preciosos auxiliares
à condução baseados em IA. É o caso da deteção de obstáculos e auxílio na
travagem de emergência, da ajuda no estacionamento, do controlo de velocidade e
da identificação de sinais de cansaço no condutor.
Em determinados contextos e tarefas, a IA consegue
ultrapassar com larga vantagem os humanos. É o caso da análise dos mercados
financeiros, em que pequenas flutuações de valores, que passariam facilmente
despercebidos à atenção humana são facilmente identificados pelas máquinas e
poderão desencadear uma reação rápida e lucros de milhões. Ou a monitorização e
prevenção de ciberataques pela deteção de uma ligeira alteração no
comportamento do sistema.
De facto, a IA tem melhor desempenho que os humanos na
análise de grandes quantidades de informação de forma rápida e precisa. E pode
fazer isso 24 horas, 7 dias por semana, sem introduzir erros devido ao cansaço.
As máquinas, aliadas à IA, são mais eficazes que os humanos em tarefas muito
repetitivas, que consomem muito tempo ou que obrigam a uma atenção extrema a
vários fatores em simultâneo.
Outro aspeto importante é que a IA, sobretudo quando
associada à robótica e a sensores, é particularmente adequada para situações
onde a vida humana é mais suscetível de estar em perigo, em condições físicas
extremas ou para benefício de pessoas com deficiência. É o caso dos trabalhos
em minas, exploração do mar ou do espaço, montagem e deslocação de equipamento
pesado ou desativação de bombas. A máquina “aprende” a identificar as situações
seguras e as situações de perigo e a agir em conformidade.
Esses são apenas alguns exemplos de situações em que a
utilização da IA permite um grande aumento da eficiência operacional.
Mas, é ingénuo pensar que a IA só pode ser utilizada
para coisas que favorecem a humanidade. “Não há bela sem senão” e também no
caso da IA existe o reverso da medalha. Estes sistemas envolvem um elevado investimento
e estima-se que cause grandes vagas de desemprego, pelo menos no atual modelo
de emprego. Além disso, para que os sistemas inteligentes “aprendam” precisam
de analisar e processar muita informação. Temos de fornecer-lhes essa
informação, disponibilizar-lhe todos os “segredos do negócio”, muitas vezes à
custa da nossa privacidade ou outros aspetos sensíveis. Basta pensarmos num
sistema de apoio médico que terá de conhecer todo o nosso historial de saúde e
estilo de vida para poder tomar as melhores “decisões”. Ao expormos a nossa
informação e a nossa estratégia a essa “inteligência” ficamos, de certo modo,
reféns dessa tecnologia e nenhuma tecnologia ligada à Internet é inviolável.
Mais, mesmo quando programada para algo benéfico, após fornecermos a informação
ao sistema ele vai aprender e evoluir para atingir o seu objetivo de um modo
que não podemos prever, nem assegurar que não acabe por tomar decisões
controversas, erradas ou mesmo criminosas. Nas mãos da pessoa errada, ou mesmo
inadvertidamente, a IA pode facilmente causar perdas avultadas, quer em termos
humanos, quer em termos financeiros.
Muitos cientistas veem com apreensão a evolução desse
campo da ciência. Mesmo sem cair em visões catastróficas, de filmes em que a
humanidade é exterminada pelas máquinas inteligentes em prol de um bem maior
para o nosso planeta, é fácil prever cenários em que as coisas poderão correr
mal. O famoso físico Stephen Hawking afirmou “A criação bem-sucedida de
inteligência artificial seria o maior evento na história da humanidade. Infelizmente,
pode também ser o último, a menos que aprendamos a evitar os riscos” e
“Acredito que o desenvolvimento pleno da inteligência artificial poderia
significar o fim da raça humana”.
Apesar das opiniões controversas sobre o assunto,
departamentos de defesa, universidades e grandes empresas tecnológicas investem
milhões para criar produtos e serviços com base em IA. À medida que conhecemos as
suas características e como utilizá-la mais eficazmente, a dinâmica do nosso
trabalho, do nosso lazer, dos nossos locais de trabalho e mesmo das nossas
habitações vai mudar para sempre. Resta perceber como a sociedade também se
adaptará a esta revolução que já se iniciou.
Elisabete Maria da Silva
Raposo Freire
Professora do
Departamento de Informática
Faculdade de Ciências e
Tecnologia da Universidade dos Açores
elisabete.ms.freire@uac.pt