Histórias verdadeiras dos Açores do século XVI
As Saudades Mais Malucas da Terra
Juro que é verdade! — palavra de Gaspar Frutuoso
Há mais de 400 anos, um padre muito curioso de São Miguel apontou tudo o que via e ouvia nas ilhas: ovos atirados como bolas de neve, pombos que pousavam nos braços, peixes gigantes, terramotos e piratas. Neste livro, é ele que te conta essas histórias.
Índice
Escolhe uma história. Podes lê-las pela ordem ou saltar para a que te parecer mais maluca.
- IntroduçãoQuem era este padre tão curioso?
- Capítulo 1Ilhas cheias de pássaros
- Capítulo 2Ovos voadores
- Capítulo 3A ilha deitada no mar
- Capítulo 4O ouro azul
- Capítulo 5Batatas murchas e açúcar perdido
- Capítulo 6A boca do inferno
- Capítulo 7A falsa mina de prata
- Capítulo 8Fortes como gigantes
- Capítulo 9O dia em que a terra tremeu
- Capítulo 10Jogos com guizos e saltos impossíveis
- Capítulo 11Monstros do mar
- Capítulo 12Gente de cem anos e segredos de família
- Capítulo 13Corsários ao amanhecer
- Capítulo 14Milagres em Santa Maria
Introdução
Quem era este padre tão curioso?
…o livro mais importante sobre a história antiga dos Açores foi escrito à mão, com uma pena, e esperou mais de 300 anos para ser publicado por inteiro?
A história
Muito prazer! Chamo-me Gaspar Frutuoso. Nasci em 1522, em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel. Nesse tempo, Ponta Delgada ainda não era cidade, era só uma vila. O meu pai, Frutuoso Dias, era mercador e tinha terras. A minha mãe chamava-se Isabel Fernandes.
Eu era bom aluno e queria ser padre. Por isso, os meus pais mandaram-me estudar para muito longe: para a Universidade de Salamanca, em Espanha. Imagina a viagem! Semanas de barco à vela e depois muitos dias a cavalo.
Quando voltei, fui padre na Lagoa e depois na Ribeira Grande, onde fiquei até ao fim da vida. Mas eu tinha um defeito, ou uma qualidade, como preferires: era muito curioso! Queria saber tudo. Como foram descobertas as ilhas? Quem foram os primeiros a viver cá? Porque treme a terra? Que aves voam nas nossas matas?
Andei pela ilha toda, perguntei aos mais velhos, li papéis antigos nos cartórios e apontei tudo. Entre 1586 e 1590 juntei tudo num livro enorme, com seis partes, a que chamei Saudades da Terra. Tinha uma biblioteca com uns 400 livros, coisa raríssima naquele tempo.
Neste livro vou contar-te as histórias mais espantosas que lá escrevi. Algumas vi com os meus olhos. Outras contaram-mas pessoas de confiança. Todas me fizeram abrir a boca de espanto. E juro que são verdade!
Juro que é verdade!
Morri a 24 de agosto de 1591 e fui sepultado na igreja de Nossa Senhora da Estrela, na Ribeira Grande. Hoje há lá uma estátua minha. Vai lá dizer-me olá!
E na História dos Açores?
No meu tempo, as ilhas tinham sido povoadas havia pouco mais de cem anos. Fui o primeiro a escrever uma história completa dos Açores, e o meu livro é ainda hoje a fonte mais importante sobre os primeiros tempos das ilhas. Também escrevi sobre a Madeira, as Canárias e Cabo Verde.
Ontem e hoje
| No tempo de Frutuoso | Hoje |
|---|---|
| Escrevia-se à mão, com pena e tinta | Escrevemos no computador ou no telemóvel |
| Ir estudar a Espanha levava semanas | De avião leva poucas horas |
| Ter 400 livros era uma raridade | Uma biblioteca escolar tem milhares |
Desafio
Verdadeiro ou falso? O livro Saudades da Terra foi publicado logo que Frutuoso o acabou.
Ver resposta
Falso! Ficou guardado em manuscrito. Só no século XX foi publicado por inteiro.
Vai lá: a igreja de Nossa Senhora da Estrela e a estátua de Gaspar Frutuoso, na Ribeira Grande.
Capítulo 1
Ilhas cheias de pássaros
…houve pombos tão mansos que pousavam nos braços das pessoas?
A história
Quando os primeiros povoadores chegaram a São Miguel, a ilha era uma floresta enorme e cheia de pássaros. Ninguém os tinha caçado antes, por isso não tinham medo das pessoas.
Os pombos eram tantos que se vendiam quase de graça. Contaram-me de um homem que ia para o mato, ficava muito quieto de braços abertos e esperava. Os pombos vinham pousar-lhe nos braços! Ele apalpava-os, ficava com os gordos e deixava os magros voar. Outro escondia-se debaixo de ramos e voltava para casa com 30 ou 40 pombos.
E as pardelas, a que hoje chamamos cagarros? Eram aos milhares! Os caçadores iam de noite e acendiam fogueiras. A luz encandeava as aves, que ficavam baralhadas. Numa só noite, um caçador e a família apanharam 7600 pardelas. Sete mil e seiscentas!
As pardelas eram tão gordas que se tirava delas azeite. E houve um pedreiro que, num dia antes do Natal de 1514, apanhou 700 melros.
Juro que é verdade!
«Cada dez pardelas, ordinariamente, davam uma canada de azeite.»
| Palavra antiga | Quer dizer |
|---|---|
| ordinariamente | normalmente |
| canada | antiga medida, cerca de 1,4 litros |
| pardela | cagarro |
E na História dos Açores?
Antes de chegarem as pessoas, nos Açores só viviam aves, morcegos, insetos e animais do mar. Com o povoamento, a partir do século XV, as florestas foram cortadas para fazer campos, e muitas aves desapareceram ou tornaram-se raras. Frutuoso é quem melhor descreve como eram as ilhas no início.
Ontem e hoje
| No tempo de Frutuoso | Hoje |
|---|---|
| Caçavam-se milhares de cagarros para comer e tirar azeite | O cagarro é uma ave protegida |
| As fogueiras encandeavam as aves | As luzes das cidades ainda encandeiam os cagarros jovens, e todos os outonos há voluntários que os salvam e os devolvem ao mar |
Desafio
Verdadeiro ou falso? Os primeiros pombos de São Miguel fugiam das pessoas.
Ver resposta
Falso! Nunca tinham sido caçados, por isso não tinham medo e até pousavam nos braços.
Pensa e responde: porque é que hoje protegemos os cagarros, se antes se caçavam aos milhares?
Capítulo 2
Ovos voadores
…houve um tempo, em São Miguel, em que os ovos valiam tão pouco que os rapazes os usavam como bolas de neve?
A história
Olá! Sou eu outra vez, o padre Gaspar Frutuoso. Tenho uma pena, um tinteiro e uma memória cheia de histórias. Esta é das minhas preferidas.
Há muitos anos, quando a ilha de São Miguel ainda era quase toda floresta, vivia na Ribeira do Salto, perto da Ribeira Grande, um homem chamado Gonçalo Fernandes. O Gonçalo tinha galinhas. Muitas galinhas. Tantas galinhas que já não sabia o que fazer aos ovos!
Os ovos eram tantos que quase não valiam nada. Quem os levava para vender, muitas vezes voltava para casa com eles, porque ninguém os comprava.
O filho do Gonçalo, o Pedro Gonçalves, teve então uma ideia. Juntou os filhos dos vizinhos e cozeram uma panela enorme de ovos. Depois descascaram-nos e… pumba! Começaram a atirar os ovos uns aos outros, como quem atira bolas de neve. Ovos a voar por cima das sebes, ovos no cabelo, ovos nas costas, gritos e gargalhadas por todo o lado.
E não foi só uma vez. Fizeram este jogo muitas vezes! No meu tempo, as pessoas atiravam laranjas umas às outras no Carnaval, mas só nesse dia. Naqueles primeiros anos da ilha havia tanta fartura que parecia Carnaval todos os dias.
Juro que é verdade!
Assim o escrevi nas minhas Saudades da Terra:
«E algumas vezes, por folgar, um seu filho, Pedro Gonçalves, com outros filhos de seus vizinhos, coziam caldeiradas deles, e esburgando-os depois de cozidos atiravam com eles uns contra os outros, em tão pouca estima os tinham, e tantos eram, que usavam então deste jogo com ovos muitas vezes, como em dia de entrudo usam neste tempo do jogo das laranjadas.»
| Palavra antiga | Quer dizer |
|---|---|
| por folgar | para se divertirem |
| caldeirada | uma panela grande cheia |
| esburgar | descascar |
| estima | valor, importância |
| entrudo | Carnaval |
| laranjadas | guerra de laranjas |
E na História dos Açores?
Quando os primeiros povoadores chegaram a São Miguel, no século XV, trouxeram galinhas, porcos, cabras e vacas. Na ilha não havia raposas, lobos nem outros animais que os caçassem, e havia comida com fartura. Por isso multiplicaram-se muito depressa. Nos primeiros anos do povoamento, a comida era abundante e barata.
Ontem e hoje
| No tempo de Frutuoso | Hoje |
|---|---|
| 30 ovos custavam meio vintém (10 réis) | 30 ovos custam vários euros |
| Uma galinha custava 10 réis, o mesmo que 30 ovos | Uma galinha custa muito mais do que 30 ovos |
| No Carnaval atiravam-se laranjas | Em São Miguel ainda há batalhas no Carnaval, mas com «limas» de cera cheias de água |
Desafio
Verdadeiro ou falso? Os rapazes atiravam ovos crus uns aos outros.
Ver resposta
Falso! Os ovos eram cozidos e descascados primeiro. Volta a ler a citação e procura a palavra «esburgando».
Pensa e responde: porque é que os ovos eram tão baratos nos primeiros anos da ilha?
Capítulo 3
A ilha deitada no mar
…Frutuoso olhou para o mapa de São Miguel e viu lá um gigante a dormir?
A história
No meu tempo, toda a gente conhecia as aventuras dos cavaleiros. Num desses livros, o Palmeirim de Inglaterra, havia um gigante enorme chamado Almourol. Vivia num castelo com o mesmo nome e guardava uma donzela linda, chamada Miraguarda.
Ao olhar para a forma da costa de São Miguel, havia quem imaginasse o gigante Almourol deitado no mar, a dormir! As pontas da ilha eram os braços e as pernas, as baías eram as curvas do corpo e as povoações da costa estavam espalhadas por ele como se fossem partes do gigante.
Por isso, quando descrevi a ilha toda à volta, fi-lo como se estivesse a percorrer o corpo do gigante, da cabeça aos pés.
E há uma coincidência curiosa. O homem que descobriu São Miguel, Frei Gonçalo Velho, era comendador de Almourol, o castelo verdadeiro que ainda hoje existe no meio do rio Tejo!
Juro que é verdade!
Assim começa o capítulo onde descrevo a ilha:
«Da figura que se imagina ter a ilha de São Miguel, do gigante Almourol (…) a modo deste gigante deitado ali no mar, com as povoações, cabos e enseadas que ao longo dela correm como membros e parte de seu corpo.»
| Palavra antiga | Quer dizer |
|---|---|
| figura | forma |
| a modo de | como se fosse |
| enseada | pequena baía |
| membros | braços e pernas |
E na História dos Açores?
No século XVI, os mapas eram feitos por quem navegava à volta das ilhas e media as distâncias entre as pontas e as baías. Frutuoso descreveu a costa de São Miguel com tanto pormenor que, ainda hoje, os geógrafos usam o seu livro para saber como eram as povoações e as paisagens naquele tempo.
Ontem e hoje
| No tempo de Frutuoso | Hoje |
|---|---|
| A ilha desenhava-se a partir do mar, à volta da costa | Vemos a ilha inteira em fotografias de satélite |
| As distâncias mediam-se em léguas e «tiros de besta» | Medimos em quilómetros |
Desafio
Desenha! Pega num mapa de São Miguel e desenha o gigante Almourol deitado. Onde ficam a cabeça, os braços e os pés?
Verdadeiro ou falso? O castelo de Almourol fica nos Açores.
Ver resposta
Falso! Fica numa ilhota do rio Tejo, em Portugal continental.
Capítulo 4
O ouro azul
…a planta que fez São Miguel rica servia para pintar roupa de azul e deixava as cabras malucas?
A história
No meu tempo, havia em São Miguel uma planta que valia ouro. Chamava-se pastel. Não é um bolo, é uma erva! Das suas folhas fazia-se uma tinta azul para pintar os tecidos.
Dava muito trabalho. Primeiro apanhavam-se as folhas e moíam-se até virarem uma pasta. Depois, com as mãos, faziam-se bolas, como quem faz bolas de plasticina, e punham-se a secar ao sol e ao vento. As bolas ficavam guardadas até aos meses de janeiro a março, quando chegavam os compradores. Antes de vender, ainda se molhavam e se reviravam durante uns 30 dias.
E quem vinha comprar? Os ingleses! Chegavam nos seus navios, carregados de roupa e de dinheiro para trocar pelo nosso pastel. O negócio era tão bom que eu disse que a ilha parecia uma mina de ouro. O Rei também ganhava: ficava com 24% de todo o pastel em impostos.
Só havia um problema: as cabras. Adoravam pastel, mas quando o comiam ficavam doidas e morriam!
Juro que é verdade!
«As cabras são doidas por pastel e comendo-o endoidecem e morrem.»
«que vêm os ingreses buscar, carregados de roupa e dinheiro»
| Palavra antiga | Quer dizer |
|---|---|
| endoidecer | ficar doido |
| ingreses | ingleses |
| pastel | planta que dá tinta azul |
E na História dos Açores?
No século XVI, o pastel e o trigo foram as grandes riquezas de São Miguel. O pastel era vendido para Inglaterra e para a Flandres, onde se faziam tecidos. No século XVII chegou à Europa o anil, uma tinta azul vinda de terras distantes, mais barata e mais forte, e o negócio do pastel acabou.
Ontem e hoje
| No tempo de Frutuoso | Hoje |
|---|---|
| A tinta azul vinha de uma planta | A maior parte das tintas é feita em fábricas |
| Trocava-se pastel por roupa e dinheiro | Compramos roupa feita, muitas vezes em lojas online |
| O pastel era a riqueza da ilha | Hoje são o leite, o turismo e a pesca |
Desafio
Verdadeiro ou falso? O pastel de que fala Frutuoso era um doce.
Ver resposta
Falso! Era uma planta que dava tinta azul para os tecidos.
Pensa e responde: o que comprarias tu se fosses um mercador inglês em São Miguel no século XVI?
Capítulo 5
Batatas murchas e açúcar perdido
…a batata-doce chegou a São Miguel murcha e quase ninguém a quis comer, com medo de que fosse venenosa?
A história
Tudo começou em casa de Sebastião Pires. Uns passageiros de um navio castelhano, vindo das Índias, deram à mulher dele umas batatas pequenas, finas e murchas. Ela, curiosa, plantou-as no quintal. E não é que cresceram?
Mas depois apareceram lagartas nas plantas, e as pessoas pensaram que as batatas eram venenosas. Deixaram de as plantar e quase se perderam! Felizmente, mais tarde voltaram a experimentar. No meu tempo, a batata-doce já se comia assada ou cozida: era comida dos pobres e mimo dos ricos, e até se mandava para o Reino.
O mesmo Sebastião Pires também experimentou a cana-de-açúcar. Em 1540 fez cerca de 15 pães de açúcar, os primeiros da ilha. Construíram-se engenhos, que eram fábricas de açúcar. Mas veio um bicho que atacou as canas, e os engenhos acabaram. Um engenho que custou 600 mil réis a construir foi vendido por 60 mil, dez vezes menos!
E os tremoços? Por volta de 1550, um lavrador chamado Barão Fernandes semeou-os à volta do trigo. Repararam que, no ano seguinte, o trigo crescia muito melhor. Os tremoços passaram a ser o remédio das terras cansadas. E têm uma mania curiosa: de manhã viram-se para o nascer do Sol, acompanham-no durante o dia e à tarde ficam virados para o pôr do Sol.
Juro que é verdade!
«umas betatas pequenas, delgadas e murchas»
| Palavra antiga | Quer dizer |
|---|---|
| betatas | batatas-doces |
| delgadas | finas |
| pão de açúcar | bloco de açúcar em forma de cone |
| mezinha | remédio caseiro (era o que Frutuoso chamava aos tremoços) |
E na História dos Açores?
Os Açores ficavam no caminho dos navios que iam e vinham da América, da África e da Índia. Por isso chegavam às ilhas plantas novas, que os lavradores experimentavam. Umas resultavam, como a batata-doce e os tremoços. Outras falhavam, como a cana-de-açúcar.
Ontem e hoje
| No tempo de Frutuoso | Hoje |
|---|---|
| A batata-doce era uma novidade | É comida de todos os dias nos Açores |
| O açúcar era raro e caro | Compra-se em qualquer supermercado |
| Os tremoços serviam para fortalecer a terra | Ainda servem, e também se comem como petisco |
Desafio
Verdadeiro ou falso? A batata-doce foi logo um sucesso em São Miguel.
Ver resposta
Falso! Por causa das lagartas, julgaram-na venenosa e quase a abandonaram.
Experimenta: semeia tremoços num vaso, perto de uma janela, e observa se as folhas seguem o Sol.
Capítulo 6
A boca do inferno
…havia um sítio em São Miguel onde a água era tão quente que servia para pelar porcos, e os pastores juravam que lá andavam demónios?
A história
Anda comigo até às Furnas. Ouves aquele ronco? Sentes o cheiro a ovos podres? É o enxofre. Há quem chame a este lugar a boca do inferno.
Da terra saem fumos e borbulha água a ferver. Numa das caldeiras, a água é tão quente que lá se pelam leitões, porcos, cabras e cabritos. E se lá meteres um peixe, só fica a espinha! Há uma caldeira tão barulhenta e escura que parece a forja de Vulcano, o deus romano do fogo. Chamam-lhe Furna dos Ferreiros.
Os pastores tinham medo. Achavam que andavam por ali demónios, sobretudo no inverno, quando as caldeiras roncam e fumegam mais. Mas os bois eram espertos: nos dias frios deitavam-se num chão ali perto, porque estava quentinho.
Cuidado com os fumos! As aves que caem neles morrem depressa, e quem fica mais de uma hora por perto sente-se mal e até vomita.
Perto dali há uma descida chamada Pé de Porco. Porquê? Uns dizem que os primeiros homens que lá passaram comeram ali um pé de porco cozido. Outros dizem que foram uns ladrões que lá deixaram um pé de porco. Qual é a verdadeira? Não sei!
Mas nem tudo é mau: na Ribeira Quente, as pessoas tomam banho na água quente para se curarem de várias doenças. E as tainhas sobem o rio quente durante meia légua!
Juro que é verdade!
«tão quente que pelam nela leitões, porcos, cabras e cabritos»
«parecendo-lhe que andam nelas os demónios»
| Palavra antiga | Quer dizer |
|---|---|
| pelar | tirar o pelo, escaldando em água quente |
| furna | buraco, gruta, caldeira |
| forja | fogo onde o ferreiro aquece o ferro |
| légua | antiga medida, cerca de 5 a 6 km |
E na História dos Açores?
Os Açores são ilhas vulcânicas. As Furnas ficam dentro da cratera de um vulcão que ainda está ativo. Em 1630, já depois da morte de Frutuoso, entrou em erupção. As caldeiras, as águas quentes e o enxofre mostram que há calor lá em baixo.
Ontem e hoje
| No tempo de Frutuoso | Hoje |
|---|---|
| Pelavam-se porcos na água a ferver | Coze-se o famoso cozido das Furnas debaixo da terra quente |
| Os pastores tinham medo dos «demónios» | Os cientistas estudam os gases e vigiam o vulcão |
| Banhos na Ribeira Quente para curar doenças | Termas e piscinas de água quente para turistas |
Desafio
Verdadeiro ou falso? O nome Pé de Porco tem uma só explicação.
Ver resposta
Falso! Frutuoso conta duas versões e não diz qual é a certa.
Vai lá: as caldeiras das Furnas. Consegues encontrar a mais barulhenta?
Capítulo 7
A falsa mina de prata
…um homem convenceu o Rei de que havia prata em São Miguel, mas nunca de lá saiu prata nenhuma?
A história
A 22 de maio de 1553, o meu grande amigo Dr. Gaspar Gonçalves, que era médico, foi passear às Furnas. Ali encontrou uma pedra esquisita. Pensou que era salitre, que se usava para fazer pólvora. Para tirar a dúvida, mostrou-a a um artilheiro flamengo, o mestre Jaques.
Não era salitre. Quem descobriu o que era foi um curtidor, um homem que preparava peles de animais para fazer couro. Provou a pedra, sentiu-lhe o sabor e experimentou-a nas peles. Funcionou lindamente! Era pedra-hume, muito valiosa para curtir couros e fixar as cores nos tecidos.
Agora vem a parte da trapaça. Apareceu um homem de Aragão, chamado João de Torres, a dizer que aquela pedra tinha prata. Conseguiu até uma autorização do Rei para a explorar! Fizeram três ou quatro provas e… prata nenhuma. O pior? O descobridor tinha sido o meu amigo, mas o João de Torres foi pedir ao Rei os direitos só para si.
E ainda houve mais azar. Veio um mestre de Cartagena, em Espanha, que teimava em regar a pedra. A água estragava-a, e perderam-se 60 quintais de uma vez! No fim, a fábrica foi vendida e o negócio acabou.
Juro que é verdade!
«Mas requereu só para si.»
«com a regar lhe fazia perder a virtude e não dava nada»
| Palavra antiga | Quer dizer |
|---|---|
| requerer | pedir oficialmente |
| virtude | qualidade, força |
| quintal | antiga medida de peso, cerca de 59 kg |
| bombardeiro | artilheiro, quem dispara canhões |
E na História dos Açores?
No século XVI, todos sonhavam encontrar metais preciosos, como os espanhóis tinham encontrado na América. Nos Açores procurou-se também riqueza debaixo da terra, mas o que as ilhas tinham de valioso era outra coisa: o trigo, o pastel e, por pouco tempo, a pedra-hume.
Ontem e hoje
| No tempo de Frutuoso | Hoje |
|---|---|
| A pedra-hume servia para curtir couros e fixar cores | Ainda se vende nas farmácias, para acalmar a pele depois de fazer a barba |
| O Rei dava autorizações para explorar minas | Uma exploração precisa de licenças e estudos de impacto ambiental |
Desafio
Verdadeiro ou falso? A mina de São Miguel deu muita prata ao Rei.
Ver resposta
Falso! Fizeram várias provas e nunca saiu prata nenhuma.
Pensa e responde: achas justo que João de Torres tenha pedido os direitos só para si? Porquê?
Capítulo 8
Fortes como gigantes
…a pessoa mais espantosa da lista dos mais fortes de São Miguel era uma rapariga?
A história
No meu tempo não havia tratores, gruas nem carrinhos de mão com motor. Tudo se fazia com a força dos braços e das costas. Por isso, quem era forte ficava famoso. Deixa-me apresentar-te os campeões da ilha.
Na Bretanha vivia um homem chamado Casco, que carregava às costas vinte alqueires de trigo. Nos Mosteiros, João Lopes pôs às costas dois sacos de trigo e ainda uma rede cheia de peixe, e levou tudo para casa por um caminho de uma légua. Diziam também que levantava um burro pelas patas e pela cabeça!
No Nordeste, Pero Ribeiro agarrou uma vaca por uma perna, segurou-a quieta e ordenhou-a como se fosse uma cabra. Na Ribeira Grande, uma novilha de dois anos não queria ir para a eira. João Teixeira pegou nela ao colo, como se fosse uma criança, e levou-a.
Mas a minha preferida é a Maria Lopes, filha do João Lopes dos Mosteiros. Havia uma mó de moinho, uma pedra redonda enorme, que precisava de dois homens para a mexer. A Maria enfiava o braço no buraco do meio, tirava-a sozinha e voltava a pô-la no sítio!
Juro que é verdade!
«metendo o braço pelo olho da mó e a tirava e tornava a pôr»
«tomando-a em peso nos braços, como se fora uma criança»
| Palavra antiga | Quer dizer |
|---|---|
| mó | pedra redonda do moinho, que mói o cereal |
| olho da mó | buraco no meio da mó |
| em peso | inteira, levantada do chão |
| alqueire | antiga medida de cereais |
| eira | terreiro onde se separava o grão da palha |
E na História dos Açores?
No século XVI, quase todos os açorianos viviam da terra. O trigo era a principal riqueza de São Miguel: semeava-se, ceifava-se, malhava-se na eira e moía-se nos moinhos de água. Todo esse trabalho era feito à mão ou com a ajuda de bois.
Ontem e hoje
| No tempo de Frutuoso | Hoje |
|---|---|
| O trigo carregava-se às costas | Usam-se tratores e camiões |
| Os moinhos de água moíam o cereal | As fábricas moem a farinha |
| Ordenhava-se à mão | Muitas vacas são ordenhadas por máquinas |
Desafio
Verdadeiro ou falso? Na lista dos mais fortes da ilha, Frutuoso só pôs homens.
Ver resposta
Falso! Maria Lopes levantava sozinha uma mó que precisava de dois homens.
Vai lá: procura um moinho de água antigo perto de ti. Consegues imaginar a Maria a levantar a mó?
Capítulo 9
O dia em que a terra tremeu
…três homens ficaram nove dias presos debaixo da terra e sabiam se era dia ou noite graças a um galo?
A história
Nasci em 1522, o mesmo ano em que aconteceu a maior desgraça da história de São Miguel. Nesse tempo, a vila mais importante da ilha era Vila Franca do Campo. Era lá que estavam o porto principal, a alfândega, os juízes, os mercadores e as casas mais ricas.
Na noite de 21 para 22 de outubro, uma quarta-feira, o céu estava limpo e cheio de estrelas. Não corria uma brisa. Pouco antes das duas da manhã, quando quase todos dormiam, a terra começou a tremer com uma força espantosa. O tremor durou o tempo de rezar um Credo. Parecia que a ilha se virava ao contrário e que o céu caía.
Com o abanar, um pedaço do monte que fica por cima da vila soltou-se. Desceu uma enorme corrente de terra, lama e grandes penedos, que cobriu a vila quase toda. De manhã, onde antes havia casas, igrejas e ruas, só se via um campo raso.
Morreu quase toda a gente que vivia do lado oriental da ribeira, onde ficava a vila. Do outro lado, onde havia poucas casas, escaparam só umas setenta pessoas. O mosteiro dos frades, ao pé da serra, foi o primeiro edifício a ficar coberto, e lá morreram cerca de vinte pessoas, entre padres, estudantes e o hortelão. No porto estavam quatro ou cinco navios prontos a partir para Portugal, e por isso havia na vila gente de toda a ilha à espera da viagem. Muitos morreram também.
O Capitão da ilha, Rui Gonçalves da Câmara, estava numa quinta no Cavouco com a mulher e o filho Manuel, e escaparam. Mas a casa dele, na vila, ficou soterrada. Morreram lá duas filhas, D. Jerónima e D. Guiomar, o filho mais velho, uma irmã chamada D. Melícia, outro filho e muita gente da casa. Quando o Capitão chegou, não encontrou sinal da vila, nem do palácio, nem dos filhos.
Mas também houve salvamentos que parecem milagre. De manhã, encontraram uma menina de dois ou três anos sentada em cima de umas tábuas, a brincar com palhinhas! Eram as tábuas e a palha da cama onde dormia. Puseram tábuas por cima da lama e foram buscá-la.
Uma mulher foi levada pela lama, deitada na própria cama, até perto do mar, sem acordar! Quando acordou e pôs as mãos na lama, pensou que tinha chovido na cama. Depois percebeu o que era e saiu de gatas por cima da lama.
Simão Lopes ficou dois dias preso debaixo das madeiras da casa. De repente, ouviu o filho a chorar lá em cima e gritou: «Domingos! Domingos!» Cavaram ali e tiraram-no vivo.
E a história mais espantosa de todas: três homens de Guimarães estavam numa loja, à espera de um navio para voltar a Portugal. As traves do sobrado caíram e fizeram uma espécie de tenda por cima deles, que a terra cobriu. Ficaram lá debaixo nove dias! Comeram o biscoito que tinham para a viagem e beberam a água que pingava da lama, misturada com um vinho que já era quase vinagre. Para saber se era dia ou noite, tinham… um galo, que cantava de manhã! Quando as pessoas ouviram vozes debaixo da terra e cavaram um buraco, os três saíram amarelos e magros e ajoelharam-se a agradecer a Deus.
Disseram que nunca mais voltavam a São Miguel. Um ano depois, estavam cá outra vez!
Mais histórias da terra que correu
Durante um ano inteiro, as pessoas cavaram na lama. Uns procuravam os mortos, outros procuravam sobreviventes, e outros procuravam o dinheiro e as coisas valiosas que tinham ficado nas casas. Cavavam sobretudo onde os cães uivavam, porque os cães sentiam as pessoas que gritavam debaixo da terra.
As descobertas tristes. Dois padres tinham fugido do Algarve, porque o bispo os tratava mal, e moravam numa casa junto à ribeira. Como não ficaram muito cobertos de terra, os cães comeram-nos. Noutra casa, encontraram um pai, uma mãe e os filhos deitados na mesma cama, com uma trave caída por cima dos pescoços. E, uns dias depois do terramoto, encontraram numa casa uma mulher que tinha acabado de ter um bebé e a parteira com a criança nas mãos. Estavam as três mortas, mas não afogadas na lama: tinham morrido de fome, porque ninguém cavou ali a tempo. Houve ainda uma rapariga pequena que tiraram viva, mas que já não conseguia engolir e morreu pouco depois.
O cavaleiro soterrado. O filho de João Gonçalves, do Rosto de Cão, já estava montado no cavalo, de esporas calçadas e lança na mão, a sair pela porta, quando a casa lhe caiu em cima. Encontraram-no assim, ainda em cima do cavalo.
Salvos pela sorte. Uma mulher agarrou-se a uma tábua e a corrente de lama levou-a para o mar. Foi parar a um penedo enorme que a terra arrastou até ao porto. Subiu para cima dele e um bote de um navio foi lá buscá-la. Outra mulher, Luzia, foi levada até ao mar agarrada a uma figueira e também se salvou. E quando sentiu o tremor, uma mulher pôs em cima de um carro de bois, à porta, uma menina que criava. Voltou a casa para buscar as outras crianças, e a terra levou a casa, a mulher, o marido e os filhos. A menina salvou-se em cima do carro.
A mulher que não sentiu nada. Constança Vicente estava acordada, a fiar à roca, e com o barulho da roca nem sentiu o tremor! Só percebeu quando foi à cozinha acender a candeia e a encontrou toda deitada abaixo.
A palavra «tefas». Filipa Gonçalves ficou soterrada debaixo de uma casa e foi tirada viva. Viveu mais 50 anos, mas nunca mais conseguiu falar. Dizia tudo o que queria só com a palavra «tefas, tefas», e sabia dizer sim e não. Continuou a ouvir e a perceber tudo.
O cofre e a liberdade. O pai de Nuno de Atouguia prometeu a liberdade ao escravo que encontrasse o cofre do seu dinheiro. Com poucas enxadadas, um deles deu com o cofre, que era tão pesado que foram precisos seis homens para o levar. O escravo pediu a liberdade prometida. O dono disse que tinha sido a brincar, mas o escravo tanto insistiu que ele lhe deu a carta de alforria.
As lanternas fantasmas. Nas noites seguintes, quem olhava para a praia entre Vila Franca e Água de Alto via muitas lanternas e candeias acesas a andar ao longo do mar. Uns diziam que eram as almas dos mortos. Afinal eram homens à procura do dinheiro e das coisas valiosas que a terra tinha levado para o mar e que as ondas iam descobrindo! Assim, alguns pobres ficaram ricos. E outros ficaram ricos porque herdaram as fortunas dos familiares que morreram.
E uma vila nova. Onde estava a vila ficou um campo raso, que depois se encheu de hortas e pomares. A nova Vila Franca foi construída do outro lado da ribeira, onde antes ficava o arrabalde.
Juro que é verdade!
«pondo os pés em uma parte dela, tremia em outra dali a certo espaço, como faz o caramelo»
Durante muitos dias, a lama ficou mole como gelatina: pisavas num lado e tremia lá mais à frente. Por isso andava-se por cima de tábuas.
«Tal esquecimento costuma trazer consigo o perigo passado.»
Foi o que escrevi sobre os homens de Guimarães: depois de o perigo passar, as pessoas esquecem-se depressa do medo que tiveram.
| Palavra antiga | Quer dizer |
|---|---|
| subverter | destruir, afundar, soterrar |
| espaço de um Credo | o tempo de rezar o Credo, cerca de um minuto |
| lógea | loja, piso de baixo da casa |
| sobrado | piso de madeira por cima da loja |
| caramelo | gelo, ou coisa que treme como gelatina |
| biscoito | pão seco para as viagens de barco |
E na História dos Açores?
O terramoto de 22 de outubro de 1522 foi a maior catástrofe da história de São Miguel. Os sobreviventes construíram com as próprias mãos uma ermida a Nossa Senhora do Rosário, carregando às costas a pedra e a madeira. O Rei deu muitos privilégios a quem quisesse viver em Vila Franca, e a vila foi reconstruída do outro lado da ribeira. Mas a partir daí Ponta Delgada foi crescendo, e acabou por se tornar a principal povoação da ilha.
Ontem e hoje
| No tempo de Frutuoso | Hoje |
|---|---|
| Ninguém sabia porque tremia a terra; pensava-se que era um castigo de Deus | Os cientistas sabem que os Açores ficam onde se encontram três placas da crosta terrestre |
| Os sobreviventes eram encontrados porque os cães uivavam | Há equipas de socorro com cães treinados, câmaras e sensores |
| O tempo media-se pelo canto do galo | Temos relógios e telemóveis |
| Não havia avisos nem treinos | Nas escolas fazem-se simulacros de sismo |
Desafio
Verdadeiro ou falso? O terramoto de Vila Franca aconteceu numa noite de tempestade.
Ver resposta
Falso! O céu estava limpo e estrelado, e nem havia vento.
Sabes o que fazer? Num sismo: baixar, proteger, aguardar. Baixa-te, protege a cabeça debaixo de uma mesa e aguarda que o tremor pare.
Vai lá: a ermida de Nossa Senhora do Rosário, em Vila Franca do Campo, e o enorme penedo que a terra levou até ao mar, no antigo porto.
Capítulo 10
Jogos com guizos e saltos impossíveis
…no tempo de Frutuoso jogava-se uma espécie de ténis sem raquetes e sem rede, por cima de uma corda com guizos?
A história
No meu tempo não havia futebol nem videojogos, mas havia campeões! O jogo preferido era a péla. Batia-se uma bola com a mão, de um lado para o outro, por cima de uma corda. Na corda penduravam-se guizos, os cascavéis, que tilintavam quando alguém lhe tocava. O melhor jogador de todos os Açores chamava-se Brás Dias, da Ribeira Grande, e jogava tão bem com a mão direita como com a esquerda.
Mas o maior campeão era Belchior Baldaia, de Ponta Delgada. Uma vez saltou por cima da corda da péla sem fazer tocar o guizo, e o Infante D. Luís, filho do Rei, deu-lhe vinte mil réis de prémio! Saltava também dois cavalos de uma só vez, só com a mão apoiada no primeiro. E na luta, nos Mosteiros, derrubou quatro homens com o braço esquerdo atado à coxa.
Havia mais campeões. Na Serra, João Roiz Carreiro saltava por cima de uma lança segura à altura do peito por dois homens altos, dando só duas passadas de balanço. E numa corrida, levou uma barra de ferro nas mãos e mesmo assim ganhou ao adversário, que corria sem nada! Nos Fenais havia um homem conhecido por «o Lutador», que levantava uma trave grossa pela ponta, só com uma mão.
Juro que é verdade!
«saltou a corda por cima sem bulir o cascavel»
«foi o melhor jogador de pela que houve em todas as ilhas dos Açores»
| Palavra antiga | Quer dizer |
|---|---|
| péla | bola, e o jogo jogado com ela |
| bulir | mexer, tocar |
| cascavel | guizo |
| derribar | derrubar |
E na História dos Açores?
No século XVI, os jogos e as provas de força e agilidade animavam os dias de festa. Os nobres treinavam a cavalo para a guerra, e o povo divertia-se com a luta, as corridas e os saltos. A péla é antepassada de desportos de hoje, como o ténis e o voleibol.
Ontem e hoje
| No tempo de Frutuoso | Hoje |
|---|---|
| Péla com a mão, por cima de uma corda com guizos | Ténis com raquete e voleibol com rede |
| Prémio de vinte mil réis dado por um príncipe | Medalhas, taças e patrocinadores |
| Saltar por cima de uma lança | Salto em altura no atletismo |
Desafio
Verdadeiro ou falso? A péla jogava-se por cima de uma rede.
Ver resposta
Falso! Jogava-se por cima de uma corda com guizos.
Experimenta: pendura uma corda com guizos no recreio e joga à péla só com as mãos. Quem consegue não fazer tocar o guizo?
Capítulo 11
Monstros do mar
…deu à costa de São Miguel um peixe tão grande que lhe cabia na boca uma junta de bois com o carro?
A história
Por volta de 1536, perto do Porto Formoso e da Maia, as pessoas viram uma coisa enorme na praia. Era um peixe gigantesco! Media 42 côvados de comprido, mais ou menos o comprimento de dois autocarros e meio. Os homens diziam que, de boca aberta, lhe cabia lá dentro uma junta de bois com o carro e tudo.
O mais estranho é que quase não tinha ossos, só umas cartilagens. Para o desfazer, trabalharam 100 homens com machados no primeiro dia e 150 no segundo! Quando o abriram, saiu tanto azeite que dava para encher duas ou três pipas grandes. O azeite ficou duro na água, branco como manteiga.
E os tendões? Eram tão fortes que as pessoas os usaram como cordas para arrastar madeira da serra. Nunca se partiam e até aguentavam bois e cavalos!
Em 1580 houve outra aventura. Durante quatro ou cinco dias, três peixes enormes lutaram no mar, ao largo da costa sul. No fim, os pescadores de Vila Franca encontraram um deles morto, com uma cabeça do tamanho de um barco de pesca. Uns diziam que era um «peixe mulo», outros um peixe-espada. Ninguém sabia ao certo.
E em terra também aconteciam coisas estranhas. Em 1581, em Vila Franca do Campo, nasceu um pintainho com oito pernas. Andava em duas e arrastava as outras!
Juro que é verdade!
«No primeiro dia, andaram cem homens cortando nele com machados; no segundo, cento e cinquenta»
«tiravam e arrastavam madeira na serra com eles, como com tamoeiros de arrastar»
| Palavra antiga | Quer dizer |
|---|---|
| côvado | antiga medida, cerca de 66 cm |
| pipa | barril grande |
| tamoeiro | correia forte de couro usada para puxar o carro de bois |
| junta de bois | dois bois presos ao mesmo jugo |
E na História dos Açores?
O mar sempre foi parte da vida dos açorianos. No século XVI, um animal enorme que desse à costa era uma riqueza, porque dele se tirava azeite para as candeias. Mais tarde, nos séculos XIX e XX, os açorianos caçaram cachalotes, até a caça à baleia acabar nos anos 80.
Ontem e hoje
| No tempo de Frutuoso | Hoje |
|---|---|
| Um peixe gigante na praia era um mistério | Os cientistas identificam as espécies |
| Tirava-se o azeite dos animais do mar | As baleias são protegidas e observadas por turistas |
| Ninguém sabia que peixe era | Pela falta de ossos, talvez fosse um tubarão gigante, que tem cartilagem em vez de ossos |
Desafio
Verdadeiro ou falso? Os ossos do peixe gigante foram usados para construir casas.
Ver resposta
Falso! Quase não tinha ossos. Foram os tendões que serviram de cordas.
Mede! No recreio, marca 28 metros, o comprimento aproximado do peixe. Quantos alunos deitados cabem lá?
Capítulo 12
Gente de cem anos e segredos de família
…um homem de São Miguel terá vivido 120 anos e ficou conhecido pela barba enorme?
A história
Em São Miguel conheci, ou ouvi falar, de pessoas que passaram dos cem! Pedro Afonso tinha uma barba tão comprida que lhe chamavam «Pedro Afonso da Barba», e morreu com 120 anos. Maria Anes viveu 108 anos e, quando morreu, tinha à volta da cama 30 filhos, netos, bisnetos e trinetos. Bartoleza Franca, aos 110, ainda via bem, tinha os dentes todos e a cabeça no sítio!
E havia velhinhas valentes. Uma senhora chamada Maria Gonçalves soube que vinham prender o filho. Selou um cavalo, pegou numa lança e num escudo e cavalgou até casa dele para o avisar. Quem a viu passar julgou que era um cavaleiro!
Também há histórias de mar. João Bravo ficou sozinho num navio à deriva, depois de os companheiros terem descido a terra. Andou onze dias pelo mar e foi parar a Safim, em Marrocos. Sobreviveu a comer abóboras e a beber água de rosas, e dizia que o barco parecia guiar-se sozinho enquanto ele dormia.
E uma história de dívidas! João Dorta devia dinheiro a várias pessoas. Para pagar, exigiu que cada uma dançasse no terreiro ao som de uma gaita de foles. Pantaleão Fogaça recusou ao princípio, mas acabou por dançar para receber o que lhe deviam.
O filho secreto do conde
Agora um segredo de família. No Porto nasceu um menino, filho do Conde da Feira e de uma senhora importante da cidade. Para evitar um escândalo, o bebé foi entregue a um ferreiro, que o criou na pobreza. Um dia, uma vizinha contou-lhe a verdade: o pai era um nobre e a mãe era da família Macedo, da Rua Chã.
O rapaz, chamado Jorge, veio parar a São Miguel. Aprendeu o ofício de ferreiro e casou com a filha de um mestre de navio. Anos depois, com a ajuda de um frade, foi procurar a família. O conde exigiu provas. E a prova foi… um sinal no corpo que todos os filhos do conde tinham! Jorge tinha-o. Em 1573 foi reconhecido como D. Jorge Pereira e recebido com honras em Ponta Delgada.
Juro que é verdade!
«porque a tinha muito comprida, faleceu de cento e vinte anos»
«cuidando que era algum cavaleiro»
| Palavra antiga | Quer dizer |
|---|---|
| falecer | morrer |
| cuidar | pensar, julgar |
| terreiro | largo, recinto aberto |
| filho natural | filho de pais que não eram casados |
E na História dos Açores?
No século XVI, as famílias eram muito grandes e o nome da família era muito importante. Frutuoso dedicou muitos capítulos a contar quem eram os pais, os avós e os filhos das famílias da ilha. Por isso, ainda hoje há açorianos que usam o seu livro para descobrir os antepassados.
Ontem e hoje
| No tempo de Frutuoso | Hoje |
|---|---|
| Viver mais de cem anos era raríssimo e espantava toda a gente | Continua a ser raro, mas há cada vez mais pessoas centenárias |
| Um navio à deriva podia andar perdido semanas | Os navios têm GPS e rádio |
| Provava-se a família por um sinal no corpo | Hoje há testes de ADN |
Desafio
Verdadeiro ou falso? João Bravo foi parar ao Brasil.
Ver resposta
Falso! O navio levou-o a Safim, em Marrocos, em onze dias.
Investiga: pergunta em casa quem é a pessoa mais velha da tua família. Quantos anos tem? E quantos netos?
Capítulo 13
Corsários ao amanhecer
…em 1576 os piratas atacaram Santa Maria porque os vigias foram para casa dormir?
A história
Esta história passou-se na ilha de Santa Maria, num domingo do início de agosto de 1576, dia de Nossa Senhora das Neves.
Nos dias anteriores, tinham chegado barcos de São Miguel e da Madeira. Todos diziam o mesmo: «Não há piratas por perto!» As pessoas de Vila do Porto ficaram descansadas. Tão descansadas que não puseram guardas nos sítios de vigia, na Ribeira Seca e no Marvão. Na capela só ficaram quatro homens de vigia, e dois deles foram dormir para casa!
Havia ainda um jovem vigia, João de Matos, que devia acender as fogueiras de aviso. Não as acendeu, com medo de levar um ralhete.
Mas os piratas estavam mesmo ali! Eram corsários franceses, que vinham num galeão, numa nau mais pequena e numa zavra. Chegaram à vila antes de nascer o dia, quando toda a gente dormia.
Foram os pescadores que deram o alarme. Os homens da vila pegaram nas armas e lutaram nas ruas. Alguns morreram a defender a vila. E houve uma mulher muito corajosa: enquanto os homens combatiam, ela atirava pedras aos piratas e levava pedras aos homens para eles atirarem também!
Juro que é verdade!
No meu livro, quem conta esta história é a própria Verdade, como se fosse uma pessoa. O capítulo chama-se assim:
«Em que a Verdade começa a contar uma entrada que fizeram uns cossairos na Vila do Porto da ilha de Santa Maria»
| Palavra antiga | Quer dizer |
|---|---|
| cossairos | corsários, piratas |
| entrada | ataque, invasão |
| zavra | pequeno navio |
| vigia | quem fica de guarda a olhar o mar |
E na História dos Açores?
No século XVI, os navios carregados de ouro, prata e especiarias que voltavam da América e da Índia passavam pelos Açores. Por isso, os corsários franceses, ingleses e do Norte de África andavam por perto e atacavam as ilhas. As povoações construíram fortes e tinham vigias que acendiam fogueiras para avisar quando viam navios inimigos.
Ontem e hoje
| No tempo de Frutuoso | Hoje |
|---|---|
| Os vigias acendiam fogueiras para avisar | Usam-se radares, rádio e telemóveis |
| Os corsários atacavam as vilas | Os fortes antigos são monumentos que se podem visitar |
Desafio
Verdadeiro ou falso? Os moradores de Vila do Porto estavam preparados para o ataque.
Ver resposta
Falso! Pensavam que não havia piratas por perto, e os vigias não deram o alarme.
Pensa e responde: o que devia ter feito o jovem João de Matos? Porquê?
Vai lá: o Forte de São Brás, em Vila do Porto.
Capítulo 14
Milagres em Santa Maria
…em Santa Maria contava-se que umas ovelhas foram comidas numa festa e no dia seguinte apareceram vivas?
A história
Santa Maria foi a primeira ilha dos Açores a ser povoada. As pessoas de lá eram muito devotas, e contavam-me histórias que achavam ser milagres. Eu escrevi-as tal como mas contaram. Agora decide tu!
Na Praia havia uma fonte de Nossa Senhora dos Remédios. Um moleiro chamado Pedro Afonso, de Valverde, estava doente e de cama havia três anos. Bebeu da água da fonte e… deitou pela boca um bicho parecido com uma enguia, maior que um palmo! Depois levantou-se e foi a pé para casa, curado.
Na ilha vivia também um curandeiro chamado João Vaz das Virtudes. Numa festa do Espírito Santo, chegaram muitos viajantes com fome, e ele mandou dar-lhes umas ovelhas. As ovelhas foram mortas e comidas. Mas no dia seguinte, quem as foi procurar encontrou-as vivas no campo, só com umas marcas no pescoço!
Noutra altura, faltou azeite na ilha. A neta de João Vaz foi a uma talha que tinha visto vazia… e encontrou-a cheia de azeite!
João Vaz era tão famoso que o chamaram a Lisboa para tratar o Rei D. Manuel ou a Rainha. Quando lhe ofereceram uma recompensa, podia ter pedido muito. Pediu só umas terras pequenas junto às suas. Preferia ser conhecido por moderado do que por ganancioso.
Juro que é verdade!
«lançou pela boca um bicho da feição de eiró, maior que um palmo»
«a achou cheia de azeite, não tendo dantes gota dele»
| Palavra antiga | Quer dizer |
|---|---|
| da feição de | com a forma de |
| eiró | enguia |
| palmo | antiga medida, cerca de 22 cm |
| talha | grande pote de barro |
| temperado | moderado, que não exagera |
| cobiçoso | ganancioso |
E na História dos Açores?
A religião tinha um lugar enorme na vida das pessoas do século XVI. As festas do Espírito Santo, com bodos em que se dá comida a quem precisa, chegaram com os primeiros povoadores e ainda hoje se fazem em todas as ilhas dos Açores.
Ontem e hoje
| No tempo de Frutuoso | Hoje |
|---|---|
| Nos bodos do Espírito Santo dava-se comida aos viajantes com fome | As sopas do Espírito Santo ainda se oferecem a todos |
| Um curandeiro tratava as doenças | Vamos ao centro de saúde e ao hospital |
| Um bicho saído da boca era um milagre | Hoje diríamos que era um parasita |
Desafio
Pensa e responde: porque achas que as pessoas daquele tempo acreditavam nestes milagres?
Verdadeiro ou falso? João Vaz das Virtudes pediu ao Rei uma grande fortuna.
Ver resposta
Falso! Pediu pouco, porque preferia ser moderado do que ganancioso.
Vai lá: se fores a Santa Maria, procura a fonte de Nossa Senhora dos Remédios, na Praia.
De onde vêm estas histórias
As histórias vêm das Saudades da Terra, o livro que Gaspar Frutuoso escreveu entre 1586 e 1590, sobretudo dos Livros III (Santa Maria) e IV (São Miguel). Podes ler o texto original na Biblioteca do Almanaque Açoriano.
As caixas «E na História dos Açores?» e «Ontem e hoje» explicam o contexto e comparam com os dias de hoje. A introdução usa também o artigo «Gaspar Frutuoso, o cientista da História», da Universidade dos Açores.
Muitas destas histórias Frutuoso ouviu-as contar a outras pessoas. São verdadeiras porque foi isto que ele escreveu, mas nem todas estão comprovadas. Um bom historiador pergunta sempre: como é que sabemos isto?